Categoria — Os dois paradigmas
Ida Rolf e os dois paradigmas - Parte X
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Pesquisa e os dois paradigmas
É fácil compreender como a revolução biomédica veio relegar o holismo. A medicina científica e o método científico moderno fazem um casamento perfeito. Ambos estão firmemente enraizados em suposições cartesianas… que o universo é composto por partes distintas que podem ser isoladas, estudadas e compreendidas. O relacionamento entre as partes importa, mas a natureza de cada uma delas pode ser estudada e compreendida sem relação com as outras.
As contribuições do ponto de vista reducionista à medicina foram enormes. Exemplos óbvios são a cirurgia moderna e o tratamento dos traumatismos. Outro exemplo é o campo das doenças infecciosas, onde vidas incontáveis foram preservadas por causa das descobertas feitas pela medicina científica. As grandes pragas que mataram milhões durante toda a história da humanidade são agora em sua maior parte evitáveis e tratáveis. (Ironicamenete, muitas das lutas contra as grandes pragas validaram as proposições de Hipócrates – manter limpas as fontes de água, lavar as mãos, manter o ambiente livre de dejetos orgânicos, foram algumas das descobertas avançadas que ajudaram a limitar as doenças mais perigosas.) Além disso, o método científico forneceu um modelo para a investigação rigorosa, que foi adotado por todas as ciências.
Entretanto, de várias maneiras, nós estamos testemunhando hoje a revolução biomédica levada a seu extremo lógico. Se os seres humanos são máquinas biológicas, então a biologia é a resposta para todos os problemas. O que nós vemos agora é a adoção de drogas para cada aflição concebível, para cada aberração da norma, tanto física como emocional. A união do método científico e da medicina biológica conduziu ao Viagra, ao Prozac…e a todas as pílulas mágicas.
Por outro lado, o holismo e o método científico têm um relacionamento difícil. Uma das suposições básicas do holismo - a primazia do relacionamento, o interconexão de todos os aspectos do universo – torna o estudo das partes muito mais do que um desafio. O holismo resiste por natureza à noção de isolar - o ato de isolar ou separar em partes a fim de atender às finalidades da pesquisa conduz a um resultado incompleto e parcial.
Assim a pergunta que se apresenta é: pode a pesquisa eficaz ser feita dentro do paradigma holístico? Usando a Integração Estrututal como exemplo: uma disciplina pode ser mais completamente holística? Uma disciplica que considera o ser humano como uma relação no interior do campo gravitacional - Einstein e Heisenberg ficariam orgulhosos. Entretanto, que parte da Integração Estrutural é fundamental? A seqüência da série de sessões? O relacionamento entre o oprofissional e o cliente? As técnicas usadas? A experiência e o treinamento do profissional ou sua habilidade para trabalhar? Sua habilidade para escutar, sua inteligência, sua capacidade para acolher? A vontade do cliente de mudar? Que sessão é mais importante? Como separar todos esses aspectos de todo o processo?
Um exemplo vívido da diferença entre os dois paradigmas é o efeito placebo (definido por padrão como uma melhoria na saúde que não é atribuível ao tratamento). O paradigma cartesiano considera o efeito placebo como um fator que deve ser isolado a fim de que se possa avaliar a eficácia de um tratamento. O holismo adota o efeito placebo considerando que a opinião, a psicologia e as expectativas do cliente em relação ao tratamento são uma parte vital do próprio tratamento, de modo que o próprio conceito, útil no reducionismo, não tem sentido no holismo.
Dito isso, vemos que o holismo tem muito a aprender com Descartes. Desde os seus primórdios, o holismo teve um problema com rigor. Foi tradicionalmente demasiado fácil e tentador para os profissionais holísticos escrever sobre seus assuntos sem levar em consideração suas falhas ou passos em falso, sem o teste rigoroso de suas idéias, e sem certificar-se de que seus tratamentos fazem realmente o que prometem fazer. Havia alguma verdade nas críticas de Abraham Flexner às escolas holísticas. Elas faziam proposições sem nunca incomodar-se em verificá-las. Até hoje, médicos holísticos reinvidicam os benefícios de sua abordagem sem um fragmento sequer comprovação, com excessão dos “casos selecionados de sucesso”.
Este é um desafio para a Integração Estrutural, mesmo sem reivindicar a cura ou o tratamento de qualquer coisa. Como profissionais, temos uma inclinação forte para a pesquisa, para validar a eficácia do nosso trabalho. Mas, eficácia em que? Queremos que a pesquisa prove o quê em nosso campo? Desejamos a comprovação de que a Integração Estrutural melhora a saúde total, a vitalidade e o funcionamento? Definidos em que bases? Para provar nossa eficácia, a pesquisa deve começar por quebrar nosso trabalho ou seus efeitos, para separá-los em partes. Melhora o equilíbrio? Diminui a dor? Fornece mais energia. E, se provado, o que isso o que significa? Reforça o sistema imunológico? Diminui ou alivia os sintomas de uma variedade de doenças e condições?
É justo nos perguntarmos o que nós queremos exatamente da pesquisa. É igualmente importante considerar que a pesquisa é, em grande parte, um fenômeno que pertence a outro paradigma. Porque se é útil e poderoso e inteligente interagir com o paradigma cartesiano e o mundo da investigação científica, pode igualmente ser útil lembrar-se de que nós não pertencemos a esse paradigma. Nossas suposições são fundamentalmente diferentes. Descartes pode ser um parceiro maravilhoso de dança, com quem se pode investir tempo e aprender, mas que retorna para uma casa diferente da nossa.
Primeiramente, nós precisamos correr riscos, como faz cada disciplina que faz reivindicações a respeito de sua ação sobre a saúde e o bem-estar. É bom e saudável e honesto ser rigoroso e ter nossas reivindicações e opiniões examinadas continuamente. Como filhos de Hippocrates, esta é a grande lição que nós podemos aprender com Descartes - continuar a fazer perguntas difíceis sobre nosso trabalho e sobre o que ele realiza, e convidar outros fazerem o mesmo, e considerar se as respostas mesmo quando elas não vão de encontro a nossas expectativas ou esperanças.
Em segundo lugar, isso faz justiça à dra. Ida Rolf e a seu espírito de pesquisadora. Através dela, nós temos nossas raizes em Descartes. A mulher que criou nosso campo ergueu-se profissionalmente no mundo da medicina científica, e sua história é a história dos dois paradigmas, não de apenas um. Valorizar o que ela teve de melhor, e valorizar o espírito que corresponde às origens da Integração Estrutural, significa honrar o melhor de ambos os mundos.
Epílogo
Quando a primeira metade do século XX chegou ao fim, os dias de glória do Instituto Rockefeller como o centro da investigação médica americana terminaram para sempre. Em 1955, o instituto começou a admitir estudantes de terceiro ciclo pela primeira vez. Sua vitalidade já não poderia ser mantida como uma instituição puramente de pesquisa, e admitir estudantes era um reconhecimento da parte de sua liderança de que os tempos tinham mudado. De alguma maneira tinha se transformado em uma vítima de seu próprio sucesso. Em grande parte por causa da influência do instituto, uma carreira no ensino e a pesquisa tinham-se tornado tão desejáveis que as escolas, com seu diálogo entre o professor e o estudante, se tinham transformado em viveiros da pesquisa. Rockefeller já não poderia competir com as faculdades pelos melhores e mais brilhantes cientistas. Em 1965, mudaria oficialmente seu nome para Universidade Rockefeller. Em seu apogeu, tinha estado no centro de uma revolução na medicina, tinha sido o lugar onde se deveria estar para realizar investigação científica pura em ciências biológicas – a instituição científica mais importante da América. Mas seu momento de brilho terminara.
Mais ou menos na mesma época, no final de 1954 e começo de 1955, Ida Rolf ensinou a primeira classe de Integração Estrutural, no lado oeste do rio Mississípi, na Faculdade de Osteopatia e Cirurgia de Kansas City. Na ocasião, chamou sua criação de Dinâmica Postural, e a ensinou aproximadamente no formato da mesma série de dez sessões que ainda estaria ensinando duas décadas mais tarde. De uma maneira inimaginável estava agora em um mundo separado do mundo em que se iniciara profissionalmente, quase quarenta anos antes, no laboratório de química do Instituto Rockefeller. Mas… nessa classe, ela e seus estudantes conduziram dois projetos de investigação, incluindo um estudo sobre os efeitos de seu trabalho em nível do colesterol. Apesar de seu enorme salto profissional, seu trabalho ainda era marcado e estimulado pelo espírito científico, com cada um dos pés apoiados sobre cada um dos dois mundos.
Sendo assim, o que vem agora? Ida Rolf cortejou Descartes e então escolheu Hipócrates, mas essa foi a história dela. Agora somos nós que, como profissionais, temos escolhas a fazer. Nós representamos um campo novo, já carregando algumas feridas auto-infligidas, tentando novamente fazer caber as partes em um todo coerente e saudável. Nós conseguimos lutar para nos definirmos a nós mesmos, para definirmos sobre como falar sobre nosso trabalho e sobre como relacionar-se com o mundo mais amplo da medicina e da saúde, que frequentemente não compartilha de nossas sensibilidades, e sobre como adaptar-se enquanto as areias continuam a deslocar-se. Nós encaramos perguntas sobre como e quando nos encontrar na fronteira entre os dois mundos, quando jogar no campo deles, quando permanecer em nosso próprio território, e como permanecer continuamente rigorosos conosco mesmos. Nossas escolhas apresentam-se continuamente. Nós escrevemos nossa história agora.

Notas, bibliografia e agradecimentos: vide original
abril 8, 2008 No Comments


