Nossa cultura nos incutiu a idéia de que, para alongar o corpo, é preciso forçá-lo a fazer o que não conseguimos. Tentamos, por exemplo, alongar a cadeia de múculos posterior flexionando o tronco sobre as pernas, buscando tocar o chão com as pontas dos dedos. Se há uma distância entre nossas mãos e o chão, balançamos o corpo para cima e para baixo, forçando-o, na crença de que assim obteremos o alongamento desejado.

Mas ao invés de forçar o corpo a fazer o que ele não consegue, no lugar de tentar tocar o chão como se estivéssemos enfrentando um desafio, podemos apenas manter o corpo na posição em que a flexão ocorre sem esforço. A flexão do tronco sobre as pernas pode ficar num ângulo apenas um pouco maior que 90 graus, não mais que isso. Enquanto a posição é mantida, os músculos da lombar e da parte posterior das coxas trabalham para sustentar o peso do tronco.

Dessa forma, a energia que está bloqueada na musculatura e que a mantém retraída (encurtada) será consumida no trabalho. No lugar de forçar o corpo a fazer algo que ele não consegue ou tem dificuldade, no lugar de obrigá-lo a alongar-se sem dar importância ao motivo que mantém a musculatura retraída, trabalhamos diretamente o fator que está impedindo o alongamento: o bloqueio energético ou, em outras palavras, a energia que deixou de fluir e se estruturou na forma de rigidez muscular. Usamos a força de gravidade para consumir a energia estruturada e não a força dos próprios músculos. Com o tempo, eles cedem e se alongam, simplesmente por que a força de gravidade é muito mais poderosa.

Uma maneira prática de realizar o trabalho, principalmente no começo, é com a ajuda de um banco ou cadeira. Na flexão, apoiamos ambas as mãos sobre o assento, ajudando dessa forma a sustentar o peso do tronco e da cabeça, como se estivéssemos de quatro. A partir dessa posição, podemos aos poucos e lentamente aliviar o peso que é colocado sobre as mãos, de modo a permitir que a própria musculatura das costas realize o trabalho, como descrito acima. No lugar de atacar a resistência dos músculos ao alongamento, forçando-os, usamos a energia deles no trabalho de sustentar o corpo em relação à força (para baixo) exercida pela gravidade.

Esta proposta busca aplicar, de forma simples e direta, o conceito reichiano de trabalho com resistência, ao usar a resistência dos tecidos - fonte somática da resistência psíquica, ao invés de tentar vencê-la. Transforma assim em recurso terapêutico algo que seria um obstáculo à mudança.

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Publicado em 14 de maio de 2008 ás 9:10.
Categorias: movimento.

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